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Inclusão e o Medo

Escrito por Administrador.

A inclusão não constitui prerrogativa específica desta ou daquela escola, nem desejo pessoal deste ou daquele Sistema de Ensino. Representa uma concepção de educação internacionalmente unânime e inúmeros dispositivos legais a sustentam com tal ênfase que se opor à mesma, significa renunciar ao magistério. Mas a inclusão, para que possa se transformar em efetiva realidade e saia depressa da dispersão dos discursos, exige que todo professor possa superar alguns medos que a entravam e que atuam como mecanismos inibidores de uma atuação inclusiva. Esta pequena crônica busca discutir alguns desses medos:

A ideologia do dom – A maior parte dos professores ainda acredita que a aprendizagem humana não constitui atributo à espécie, mas propriedade de alguns que nasceram “dotados” para essa conquista. É um erro pensar assim e se sabe que todos os alunos podem aprender alguma coisa se conseguirmos criar boas condições, tornando-os ativos e propondo desafios que estejam ao seu alcance.

O pavor do despreparo – Grande parte dos professores teme não estar convenientemente preparado para trabalhar as diferenças e para ensinar alguns alunos deficientes, esquecendo-se que ninguém pode efetivamente estar pronto para ajudar absolutamente todos e que é essenciais a busca de parcerias que completam essas limitações.

A síndrome da injustiça – Constitui forma de pensamento docente acreditar que o bom professor é o professor justo que atende a todos com igual parcimônia, esquecendo-se que a verdadeira justiça pedagógica consiste em se dedicar com mais cuidado a quem maior dificuldade apresenta. Não é assim por acaso em um hospital? Não parece ser injusto o médico dedicar igual atenção a quem está quase curado e a quem mais cuidados necessita? É hora de esquecer que a justiça se equilibra na igualdade de oportunidades.

A angústia da avaliação – A escola brasileira cresceu escorada por um sistema de avaliação cumulativo, onde se acreditava possível medir a aprendizagem com fita-métrica e com a ideia de que uma mesma nota expressa igual conceito. Esse sistema de avaliação está morto ainda que não sepulto e como fantasma continua a apavorar educadores. É preciso aceitar a certeza de que uma avaliação consciente afere “progressos” e que estes são pessoais, tornando grotesco acreditar que é possível nivelar aprendizagens. Se um aluno com dificuldade aprende, importa pouco discutir se “aprendeu o mesmo” que outro que não apresenta essa dificuldade.

A centralização do ensino – Durante muitos anos se acreditou que o professor era a essência do ensino e que cabia ao aluno um papel passivo no processo de acúmulo de saberes; sabe-se agora que essa idéia não é apenas errônea como preconceituosa e que a aprendizagem é sempre conquista pessoal do aluno que assume o centro do processo educacional. Assim sendo, o verdadeiro professor não mais ensina, apenas ajuda o aluno a aprender e se o aluno com dificuldades não é capaz de prosperar é porque não foi convenientemente ajudado.

O medo é um sentimento humano e, dessa forma, precipita uma emoção. As emoções precisam ser educadas e não podemos extirpá-las como se corta cirurgicamente glândula doente. Assim todos esses “medos” requerem paciência e educação, jamais a ácida crítica para sua superação. O professor necessita de ajuda para trabalhar a inclusão, mas a maior ajuda virá por certo de si mesmo, com a compreensão de que o medo que revela é gerado pelo medo que pensa que precisa ter.

(Celso Antunes)